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OAB/DF lança programa de orientação e mentoria para a jovem advocacia

Um terço dos inscritos na OAB/DF receberam a carteira de advogado e advogada nos últimos cinco anos. Para apoiar estes profissionais, que enfrentam diariamente os desafios do início da carreira, a seccional lançou, em 13 de junho, o programa Carreiras OAB/DF, que oferecerá orientação para a carreira jurídica, palestras com profissionais renomados, mentoria e networking.

A palestra de boas vindas, que atraiu cerca de 600 inscritos, foi feita pelo doutor e mestre em Direito Tributário da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Roberto Quiroga Mosquera. Quiroga possui experiência em tributos diretos e indiretos, tributação de operações internacionais, aquisições e reestruturações societárias, e mercado de capitais, assessorando clientes nacionais e internacionais.

A vice-presidente da OAB/DF, Cristiane Damasceno, destaca que o Brasil tem hoje mais de 1.200 cursos de Direito, quatro vezes mais que há 20 anos. No DF, são 32, enquanto há duas décadas eram quatro cursos, segundo o último diagnóstico do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), realizado em 2017.

“Foi um crescimento galopante, sentido por todas as seccionais. Esse contexto aumenta muito o nosso desafio. Precisamos amparar melhor este advogado e advogada, qualificá-los, ajudá-los a ingressar num mercado cada vez mais estreito, e que também está passando por mudanças, principalmente em consequência do uso cada vez maior da tecnologia pelos tribunais”, afirma.

O advogado Roberto Quiroga Mosquera deixou sete lições aos cerca de 300 jovens advogados e advogadas que participaram do lançamento do programa Carreiras OAB/DF: toque jazz, jogue frescobol, faça atividades lúdicas, decida o que não quer fazer, escolha um nicho para atuar, não pense só em grana, e entenda que perder faz parte, mas sempre se ganha prestando um bom serviço.

Mestre, doutor, professor e advogado do Mattos Filho, um dos maiores escritórios de advocacia do Brasil, Roberto Quiroga esteve na seccional na noite desta quinta-feira (13/6) para inaugurar o programa criado para apoiar a advocacia iniciante. Saiba mais.

A vice-presidente OAB/DF, Cristiane Damasceno, e a conselheira federal Raquel Cândido apresentaram na noite uma série de projetos que passam a ser implementados pela seccional. Leia mais aqui sobre o evento de lançamento, que contou com a presença de autoridades como o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes. O programa oferecerá orientação para a carreira jurídica, palestras com profissionais renomados, mentoria e networking.

Quiroga deixa sete lições aos advogados e advogadas iniciantes

Ao estrear o programa, Quiroga falou de sua experiência no Mattos Filho, que tem hoje 103 sócios, 500 advogados, 120 estagiários, 470 funcionários e fatura R$ 670 milhões por ano. “Tenho 58 anos, me formei em 1984 e comecei a trabalhar no Mattos Filho aos 21 anos. Estou lá há 37 anos. É uma estória de vida que amo”, disse ele, que é doutor e mestre em Direito Tributário pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e dá aulas na Universidade de São Paulo (USP) e na Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Quiroga não vê distinção entre escritórios grandes e pequenos. “O importante é o estilo que você quer trabalhar, a sua estratégia. Quando você não tem uma, o modelo de remuneração passa a ser sua estratégia. Então decida o que você não vai fazer, elimine isso da sua vida, e concentre no que você quer fazer. O nosso mercado jurídico é absolutamente plural”, disse.

Ele defende a advocacia como uma profissão de meio, não de resultado. “Não somos mercantilistas, somos auxiliares da Justiça. Um gestor de advocacia é basicamente um people maneger. Nós gerimos pessoas”, disse ele, que recomendou aos advogados iniciantes evitarem a competição. “Se você é um jovem advogado não entre pensando na competição. Pense no serviço que está prestando, ele lhe trará clientes” afirmou, em reflexão a uma frase do pai, o maître Ramón Mosquera Lopez, imigrante espanhol que fez fama numa churrascaria em São Paulo.

1. Você é uma orquestra sinfônica ou uma peça de jazz?

“O mercado jurídico é plural, existem muitas oportunidade. Quando digo isso, ouço: ah, é porque você está em um escritório grande. Nós somos grandes, mas não significa que um escritório pequeno não possa ter o sucesso de uma empresa como a nossa, onde trabalham 1,2 mil pessoas. Quando vou à Nova Iorque e vejo escritórios que têm 4 mil advogados e faturam US$ 2,5 bilhões, que significam R$ 10 bilhões, eu imagino que sou pequeno, mas não sou. Não tem escritório grande e escritório pequeno. Tem o estilo que você quer trabalhar. Todos nós pertencemos ao mercado jurídico e é preciso escolher. Você é uma orquestra sinfônica ou uma banda de jazz? Você é aquela peça certinha que vai tocar partitura ou o cara que vai improvisar, que vai atuar de uma forma um pouco desorganizada, mas chegará ao propósito final? A primeira coisa que digo ao jovem advogado é: perceba você mesmo, veja qual é o seu estilo, não pense que trabalhar num escritório grande é o que necessariamente você precisa buscar.

2. “Nós administramos pessoas”

Um gestor de advocacia é basicamente um people maneger. Advocacia não faz mercantilismo. Nós administramos pessoas. Todos nós fomos criados pelos nossos pais para termos competências técnicas fortes, eles nos estimulam para isso, mas tem um ditado no RH que diz: contrata-se pelas competências técnicas, mas demite-se pelas competência comportamentais. A gente não estimula nossos filhos nem nós mesmos nas competências comportamentais. E a grande questão do advogado é lidar com pessoas. A técnica é o que você coloca na petição, mas é a tua competência comportamental que te finca no lugar. Portanto, não pensem só em fazer mestrado e doutorado. Façam música, teatro, dança.

3. “Jogue frescobol e não tênis”
O que é legal no frescobol? É dar a bola direitinho para o outro. Um ajuda o outro para a bola não cair, mas nós costumamos, no mercado corporativo, jogar tênis com o outro. Se formos jogar tênis com nosso sócio não vai dar certo a sociedade. Tênis com o estagiário, ele não vai aprender, vai ficar com raiva. Entre nós advogados temos de jogar frescobol e não tênis. Se você é um jovem advogado, não entre pensando na competição, não entre para jogar tênis com seu companheiro do lado. Jogue frescobol que você vai ganhar. Todo mundo ganha.

4. “Se você pensar só na grana vai errar”
Tem uma frase que diz: jovem advogado, se você pensar só na grana vai errar. Mas se você está numa situação de vulnerabilidade, vai precisar pensar no dinheiro. Se precisa trabalhar para estudar não tem como não pensar no dinheiro. Por isso sou favorável às políticas afirmativas. É a restituição de uma dívida que temos com várias segmentos. No Mattos Filho, até o ano passado, tínhamos três negros em pouco mais de 450 advogados. Isso acontece porque a gente pensa e vê a carreira como algo para ganhar dinheiro. Claro que ganhar dinheiro é importante. A grande questão é: não pense só em dinheiro.

5. “Estratégia é decidir o que você não irá fazer”
Não pensem em fazer tudo. Quando você não tem uma estratégia, o modelo de remuneração é a estratégia. Estratégia é decidir o que você não vai fazer. Se você é um escritório pequeno, decida: eu não vou fazer advocacia societária, por exemplo, não vou fazer advocacia de massa. Decida o que você não vai fazer. Isso é estratégia. Escolhe o que você não quer fazer, elimine isso da sua vida, e centralize naquilo que você quer fazer. Vivemos em torno de quatro coletivos: família, escola, trabalho e religião, que é a ética, os valores morais. São coletivos que a gente cai. O trabalho é o único que a gente escolhe. Então, escolham. Querem uma dica? Achem um nicho para entrar, para se especializarem. Não tentem fazer tudo. Peguem um nicho, mas cuidado: observem qual o próximo nicho que vão pegar. Renovem-se.

6. “Não crie no seu escritório um conjunto de escritórios”
O gênero humano é isso. A gente tenta criar nossos escritórios dentro do escritório. Eu ouvi de um advogado espanhol: remuneração variável é a semente do diabo. O que ele queria dizer? Distribuir poder, dinheiro, de forma desproporcional, é a semente do diabo, dá discórdia. Se você está entrando num lugar agora, não crie sua panelinha. É a semente do diabo.

7. “Até que ponto só ganhar vale a pena?”
Meu pai dizia para mim: advogado bom é aquele que ganha. Ele errou. Eu não diria isso a vocês. Advocacia é uma profissão de meio, não de resultado. Não somos mercantilistas, somos advogados, somos auxiliares da Justiça. Mas meu pai me disse uma coisa que é verdade: ganhar é muito bom, o resultado te traz cliente. Prestar um bom serviço, ainda que você não ganhe, te traz cliente. Cuidado com o cliente. A gente perde, mas presta um bom serviço, a gente deixa o cliente satisfeito com aquilo que ele fez.